por: Juliana Pedreira e Larissa Mariana

Dentro do contexto da criação do mundo visível, o homem foi a última e a mais bela criação de Deus, sendo considerada o ápice e a motivação de toda a obra criadora. Ao homem Deus confiou e dedicou todas as criações anteriores: Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra (Gn 1, 26-28). Ao dominar a terra, e todos os seres existentes nela, o homem manifestou sua semelhança com o Criador, que também exerce tal domínio (2). Além disso, sua natureza humana foi diferenciada da natureza dos outros seres vivos existentes até então, uma vez que estes jamais haviam sido associados à imagem ou qualquer outro atributo divino (2).

O homem então adquiriu o entendimento de sua superioridade e divergência em relação às demais criações divinas, através do dom da intuição, conferido a ele através de sua alma infusa por Deus durante sua criação (2). Mas para além disso, Adão conscientizou-se de que não poderia ser explicado em sua profundidade pelo conjunto visível dos corpos, apesar de também possuir corpo (2). A ciência de tudo isso levou Adão à uma profunda solidão, uma vez que não existia ninguém que se assemelhasse a ele e que pudesse o acompanhar em vida (2). Foi então que Deus em sua infinita bondade, visando encerrar a solidão do homem, criou a mulher.

Para a criação da mulher, Deus enviou o homem a um sono profundo (torpor), pelo qual Adão retornou ao momento que antecedeu sua criação, e por ação divina ressurgiu em sua dupla unidade de homem e mulher (2). Para isso, Deus retirou-lhe uma das costelas, do lado onde demora o amor, e a partir dela deu origem à mulher. A costela, retirada do lado direito de Adão, simboliza a equivalência entre a dignidade do homem e da mulher perante o Senhor e, além disso, o tesouro de ternura e amabilidade aferido à mulher, por ser retirada de onde brota o coração do homem e de Deus (3,4). A mulher foi, desde o princípio, chamada a ser o coração da humanidade.

A complementariedade de Eva em relação a Adão encerrou a solidão deste, ao mesmo tempo que acentuou a semelhança de ambos à Deus, através de suas finalidades procriadoras (2). Ao ser apresentado à mulher, o homem manifestou pela primeira vez o sentimento de alegria ao exclamar: Ossos dos meus ossos e carne da minha carne, ela será chamada mulher pois foi retirada do homem. E assim como todos os seres vivos, a mulher foi nomeada e dominada pelo homem após a sua criação. Mas, além de ser nomeada, Eva foi proclamada “Mãe dos vivos” e recebeu como características intrínsecas, forte influência e poder persuasivo. Portanto, enquanto a dominação do homem se dá à luz de grandes atos de coragem manifestados publicamente, a influência da mulher é velada e muitas vezes despercebida (4).

Desde a criação, homens e mulheres possuem singularidades, características específicas. Cada um possui um conjunto de traços biológicos, emocionais e espirituais que os definem e, como já pontuado, os tornam seres semelhante ao Criador. Homem e mulher sendo diferentes, se assemelham à Deus. Em geral, a mulheres são mais sábias (característica que se difere da inteligência), mais receptivas, se interessam mais por aquilo que é pessoal e vivo e, por isso, tendem a ser mais religiosas, altruístas e amáveis (5).

Espera-se que o leitor tenha percebido que, esse texto não trouxe as diferenças entre os sexos como perdas ou ganhos e sim como características que um e o outro possuem. Infelizmente nós, mulheres, fomos criadas e educadas em um mundo em que se supervaloriza o corpo e aquilo que é material. Disseminam a ideia, por exemplo, que uma pessoa de prestígio profissional é superior à uma que se dedica integralmente a educar os filhos… Valoriza-se o que é terreno e não o que é eterno.

É necessário desmistificar a ideia de que a tradição Judaico Cristã trata a mulher com certa inferioridade. As mulheres são muitas vezes chamadas de o “sexo frágil” e colocam essa fragilidade como algo negativo e menosprezado. A igreja e as escrituras exaltam as mulheres em suas fragilidades e sensibilidades, e são justamente essas características que as fortalecem, “pois quando sou fraco é que sou forte” (2 Coríntios 12:10). Mulheres não precisam se tornarem como os homens para serem fortes. Quando buscam a fortaleza naquilo que é próprio do ser masculino, quando buscam essa igualdade, estão alegando que eles são superiores e não o contrário. Temos que crescer naquilo que somos, e não buscar o que o outro foi criado para ser (5,6).

Quando Adão e Eva pecaram eles queriam ser como Deus, queriam ter o conhecimento do bem e do mal. Eles negaram a missão que Deus deu a eles. O menosprezo da mulher é uma das tristes consequências do pecado original que subverteu a hierarquia de valores. Adão e Eva se voltaram contra a dependência total de Deus, com isso homem e mulher rompem também a ligação entre si. Quando o orgulho entra no mundo um passa a querer ser maior que o outro. Homem e mulher passam a competir entre si.

As características próprias da mulher são características diretamente relacionadas à missão feminina, a missão da maternidade. Satanás possui uma inimizade com a figura feminina, pois ela possui uma intimidade sobrenatural com Deus. Para a concepção de uma vida é necessária a união dos gametas masculinos e femininos, mas isso basta para uma pessoa existir? A simples união dos gametas dá origem apenas ao corpo físico. O que introduz a alma neste corpo é especificamente o toque de Deus. Sim, é necessário que Deus toque especificamente o corpo da mulher para que aquele novo ser se torne uma pessoa. “Tudo o que Deus toca é Sagrado!” A serpente tentou Eva (a Mãe dos vivos) e tenta cada mulher que anda sobre a Terra, para que não vivamos o nosso papel de mulher no mundo pois, além de termos esse poder de influência para com os homens, em nossa missão existe essa possibilidade de sermos tocadas pelos dedos divinos (4).

“Ah pobres mulheres, como são menosprezadas e, ainda assim, muito mais mulheres que homens amam a Deus. Durante a Paixão muitas mulheres permaneceram ao lado de Cristo, elas demonstraram muito mais coragem que os apóstolos, pois enfrentaram os soldados e ousaram a secar a sagrada face de Jesus. Por isso, Ele permite que as mulheres sejam tratadas com desdém na Terra, uma vez que foi também isso que escolheu para Si mesmo. No Céu, Ele mostrará que os seus pensamentos não são os pensamentos dos homens, pois lá os últimos serão os primeiros.” (7).

Referências:

(1) Carta Apostólica: Mulieris dignitatem – Sobre a dignidade e a vocação da mulher por ocasião do ano mariano (João Paulo II, Papa). Disponível em:  http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/1988/documents/hf_jp-ii_apl_19880815_mulieris-dignitatem.html

(2) Livro: Teologia do Corpo: O Amor Humano no Plano Divino (João Paulo II, Papa)

(3) Aula: Homem e mulher os criou (Padre Paulo Ricardo). Disponível em: https://padrepauloricardo.org/aulas/homem-e-mulher-os-criou

(4) Palestra: O papel da mulher (Alice von Hildebrand). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GPYdvjyBTVs&list=PL1DYZnsgx1owQQQfnzpkSX0zb9ubpF HD2

(5) Livro: O privilégio de ser mulher (Alice von Hildebrand).

(6) Vídeo-resumo: O Privilégio de ser Mulher, Alice von Hildebrand (Beatriz Back – Veritas Perpetua). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2UeZ5q3Fh80

(7) Livro: História de uma alma (Teresa de Lisieux).