Mateus Henrique Miranda
Campinas, 2019

Deus é amor. É o que nos diz o evangelista em sua primeira carta (1 Jo 4, 8).
Se Deus é amor, então porque existem tamanhas atrocidades no mundo? Porque massacres ocorrem? Onde está o Amor de Deus (o próprio Deus, então) no coração das pessoas? Seria Deus mal?

Desde os primórdios do cristianismo existem aqueles que insistem em não acolher a boa nova em seus corações. Judas, o traidor, é um grande exemplo. Movido pela ambição, entregou aquele que chamara de mestre por três anos àqueles que queriam mata-Lo. Pedro também traiu Jesus. Pouco antes da paixão, Pedro afirmou que não negaria o Senhor, mas na hora derradeira, deixou-se levar pelo medo e negou-O perante os algozes de seu Deus.

O que tudo isso teve em comum com as atrocidades cometidas pelos homens de nosso tempo? Assassinos em série, ditadores sanguinários, psicopatas perversos?

A resposta é esta: Falta de Amor.

O Amor é o que faz nossos olhos enxergarem além dos defeitos do nosso próximo. É esse Amor que faz todo o ódio morrer, todo o egoísmo ceder e toda guerra acabar. Se amassemos verdadeiramente, não com o ‘amor’ que tanto se fala hoje, com sentido deturpado, mas com o amor transcendente, nada de mal haveria de existir.

Esse amor deturpado surge da destruição do eros. Eros é o amor físico. É o amor entre os esposos, que une os seres humanos.  Mas, assim como o Papa Emerito Bento XVI diz em sua primeira encíclica, Deus Caritas est, sem o amor ágape, o amor divino, o eros se torna mal. “A aparente exaltação do corpo pode bem depressa converter-se em ódio à corporeidade.” [1]

O que o Papa disse é exatamente o que acontece. Obcecados pelo corpo, importando-se com o material, cria-se uma imagem irreal do físico, e uma aversão ao que existe. Aborto, eutanásia, ideologia de gênero, suicídio etc., são todos criados pelo grande apego ao eros, e sua consequente destruição.

É necessário que o amor divino complete o amor humano, visto que o homem é corpo e alma. Negando o corpo, nos tornamos menos dignos, pois o próprio Deus, em sua infinita dignidade, se fez carne. Se negarmos o espírito, nossa grandeza, dada por esse mesmo Deus, nos deixa, e nos tornamos menos semelhantes ao Senhor. A complementariedade criada por Deus é bela, e não foi feita para ser separada.

Mas, afinal, seria Deus, então, mal, por não acabar com todo o mal?

Não! Deus é infinitamente bom. Ele é o próprio amor.  É impossível para Deus ser mal, por ser sumo bem. O mau existe por afastamento de Deus. Mesmo sabendo tudo o que faríamos, por sua onisciência, amou-nos e criou-nos. A falta de amor no coração da criação foi o fatal afastamento que nos trouxe a morte.

Quando Adão e Eva comeram o fruto, a morte os abraçou. Os seus filhos, Caim e Abel nasceram no pecado, e Caim, por inveja, matou Abel. Desde os princípios da vida a falta de amor, o afastamento de Deus, trouxe discórdia e morte.

Deus nos fez bons, e nos deu a liberdade. A liberdade transformada em libertinagem pelo pecado nos fez criar amor incondicional pelo corpo, e esse amor se tornou repulsa pela falta da graça divina. Deus não é mal, e por ser tão bom, nos deixa livres. No entanto, se escolhermos nos distanciar dEle e praticarmos o mal, tenderemos a viver na maldade.

Pedro faltou com amor, mas se arrependeu. Judas faltou com amor, e permaneceu na falta. A diferença crucial entre o Santo e o pecador é clara: Amor. Pedro amou a Cristo, pois sabia do amor do Senhor para com Ele. Judas duvidou que Jesus o amaria novamente após o ter entregue aos algozes.

Jesus, nosso Salvador, veio nos ensinar a dar a vida: Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á. (Lc 17, 33). Quem se apegar ao seu amor pessoal não poderá amar de fato o outro. Quem amar o outro, colocando-se a serviço, segue os passos de Jesus. Ele veio nos mostrar a essência do amor e da existência humana. Dar sem esperar em troca.

            1 – BENTO XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est. Disponível em:  <https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est.html>. Acesso em: 29 nov. 2019.