Jackson L. da Silva e Bárbara L. Ferrari Silva
Campinas 2019

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou. ” (Gn 1, 27). Aqui está o início de nossas vidas. Certamente essa não é nenhuma surpresa para nós católicos. Mas por que estamos aqui? Por que Deus nos fez? A vida tem alguma finalidade, plano ou propósito?
Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC) o primeiro testemunho do amor de Deus é a criação (CIC 315):
Na criação do mundo e dos homens, Deus colocou primeiro e universal testemunho do Seu amor todo poderoso e da Sua sabedoria, o primeiro anúncio de Seu ‘desígnio benevolente’, o qual encontra sua meta na nova criação em Cristo.
Além de nos criar por amor, Deus também nos criou para mostrar a Sua bondade e a Sua própria glória. Isso fica mais evidente quando pensamos que Deus, infinitamente perfeito, nos criou livremente com uma alma espiritual e imortal capaz de participar de Sua vida bem-aventurada, ou seja, somos capazes de participar da Sua própria felicidade [1].
Deus nos criou para vivermos uma felicidade maior que a encontrada aqui na terra. Não fomos feitos para viver apenas a felicidade de um presente que ganhamos, ou de uma prova em que fomos aprovados, ou ainda de bens conquistados. Fomos criados para viver uma felicidade muito mais completa. Imaginemos um soldado que está em uma guerra e por anos escreve cartas para sua amada, a qual não conhece pessoalmente, apenas por fotos vistas em um jornal. Esse soldado espera ansiosamente o momento em que encontrará a mulher de sua vida para viver eternamente ao seu lado. Assim como esse homem, Deus nos espera, ansiosamente, para viver ao nosso lado a felicidade eterna encontrada no Céu [1].
Se refletirmos sobre a felicidade que almejamos em nossa vida, veremos que sempre estamos em busca de algo maior, comparado ao que já alcançamos. Mas a felicidade que tanto esperamos será encontrada inteiramente apenas no Céu, porque é a felicidade perfeita, e nada poderá roubá-la, pois estará assegurada para sempre. No Céu possuiremos completamente a Deus e também Ele possuirá completamente a nós; é como o amor alcançado, o amor que se encontra com a completa posse da pessoa amada. A felicidade no Céu é eterna, diferente das felicidades terrenas [1].
Estar no Céu implica em amar a Deus. Temos o costume de pensar no Céu como um lugar onde encontraremos os nossos entes queridos, o que também pode ser verdade. Mas a maior razão de estar no Céu é para amar inteiramente o Nosso Senhor: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento. ” (Mt 22, 37). Contudo, para amarmos a Deus no Céu, precisamos amá-lo também nesta vida. Deus não pode elevar à plenitude o que não existe. A Eternidade não existe para o homem que não ama a Deus; podemos compará-lo ao homem cego: assim como o cego não vê, aquele que não ama a Deus não poderá vê-Lo [1].
Santo Tomás de Aquino nos ensina que para amar inteiramente a Deus é preciso amá-Lo acima de todas as coisas e como fim último de todas as coisas. A pessoa que ama a si mesmo porque reconhece sua importância diante de Deus não peca por vaidade ou amor próprio. A esposa que ama o seu marido porque reconhece que ele é querido e amado por Deus não olhará para ele como um objeto e não desprezará o que ele tem de mais valioso que é a filiação divina. O mesmo acontece em relações menos profundas, como amigos, colegas de trabalho, parentes e vizinhos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 39). Se amamos a Deus e vemos que tudo o que Ele fez e faz é bom, percebemos também o quanto os nossos irmãos e irmãs são obras-primas de Deus. Por mais complicado, chato ou mal-humorado, o nosso irmão não deixa de ser uma criação de Deus [2]. Com isso, conseguimos entender o ciclo do amor: ao perceber a grandeza de Deus e a perfeição de toda Sua criação, podemos sentir o Seu amor por nós e por tudo que Ele fez e faz, amar o nosso próximo e assim agradar a Deus.
Segundo Santo Tomás, se todas as nossas ações – grandes ou pequenas tarefas, como arrumar a casa –, estiverem direcionadas a Deus, estaremos sempre radicalmente unidos a Ele. Para esse Santo, o crescimento no amor depende de quatro disposições [2]:

  1. Conhecer mais a Deus. Como posso amar o que eu não conheço? Para isso se faz necessário estar disposto a ouvir a Palavra, ou seja, estar em contato frequente com a Bíblia. Esse é um dos três pilares da Santa Igreja (Palavra de Deus, Tradição Apostólica e Eclesial e Magistério da Igreja): Divina eloquia cum legente crescunt – as palavras divinas crescem com o leitor (CIC 94).
  2. Reconhecer continuamente os bens recebidos por Deus e, assim, perceber o quanto Ele é bondoso para conosco e age diariamente em nossas vidas. Para alcançar a felicidade eterna, Deus nos dá auxílios sobrenaturais (graças); se Ele nos deixasse entregue apenas às nossas próprias forças, jamais conseguiríamos o tipo de amor que nos fizesse merecer o Céu.
  3. Afastar o coração das coisas da terra, pois, como já mencionado, a felicidade não pertence a esse mundo.
  4. Ser paciente diante das adversidades. Estar disposto a viver com serenidade as cruzes que Deus nos confia. A Virgem Maria sabe muito bem como viver a cruz e pode nos auxiliar a passar por momentos como esses com amor, a seu exemplo.

Provamos o nosso amor por Deus, por meio do que estamos dispostos a fazer por Ele e não por meio do que sentimos por Ele [1]. Amar a Deus sobre todas as coisas é amar a Deus sem medidas, sem reservas. Precisamos saber viver um amor generoso, esperado por Deus e não um amor vazio e sem sentido. O que mais vemos atualmente são pessoas que não veem um sentido para suas vidas, e isso é doloroso. Viktor Frankl diz que uma vida sem sentido é uma vida em sofrimento [3]. Muitos não veem sentido porque não conhecem a Deus, não têm uma razão maior para viver e realizar boas obras, não têm um amor que seja transcendental, que saia de si. Essas pessoas têm a tendência de olhar para seu próprio umbigo e viver tudo para maior honra e glória de si mesmas. Viktor Frankl diz que cada época tem suas neuroses e, segundo ele, o vazio existencial é a neurose do tempo atual:
Os instintos não dizem ao homem o que ele tem que fazer e, diferente do homem do passado, o homem de hoje não tem mais a tradição que lhe diga o que deve fazer. Não sabendo o que tem e tampouco o que deve fazer, muitas vezes já não sabe mais o que no fundo, quer. Assim, só quer o que os outros fazem – conformismo! Ou só faz o que os outros querem que faça – totalitarismo. [3]
O autor nos fala sobre as tradições que eram consideradas pelos mais antigos, o que vem ao encontro do que estamos discutindo aqui: pessoas sem conhecimento de Deus e sem Fé não têm tradições para seguir. Todavia, nós como bons católicos temos o dever de levarmos em conta a tradição, principalmente a Tradição trazida pela Santa Igreja, àquela vem dos Apóstolos e transmite o que eles receberam dos ensinamentos de Jesus Cristo e aprenderam pelo Espírito Santo (CIC 83).
Essas ferramentas, junto com o conhecimento sobre a vida dos Santos, nos ajudam a viver melhor a nossa intimidade com Deus, pois, à medida que crescemos em oração e estudo, crescemos também em amor. Lembrando sempre do nosso maior objetivo, que é amar a Deus acima de todas as coisas e, assim, mostrar Sua glória. Se debruçarmo-nos sobre essas riquezas, não nos sobrará tempo para não amar a Deus. Esse é o sentido da vida para nós católicos. Não estamos nesse mundo senão para sermos bons filhos para Deus, levarmos Sua Palavra aos que não O conhecem e alcançarmos a Eternidade. São João Bosco dizia que “nossa vida é um presente de Deus e o que fazemos dela é o nosso presente a Ele”. Que possamos pensar como esse Santo e entregarmos completamente nossa vida a Nosso Senhor, na certeza de que Ele se alegrará imensamente e cuidará de nós com um amor filial e perfeito.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] TRESE, Leo. A fé explicada. 14 ed. São Paulo: Quadrante, 2015.
[2] Padre Paulo Ricardo. O mandamento do amor. Homília Dominical. Disponível em: <https://padrepauloricardo.org/episodios/o-mandamento-do-amor>. Acesso em: 08 nov. 2019.
[3] FRANKL, Viktor E. O sofrimento de uma vida sem sentido: caminhos para encontrar a razão de viver. 2015 (São Paulo): É Realizações.