Juliana Rocha Mendes Pedreira

  Larissa Mariana Oliveira Santos

Campinas, 2019

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. (…) Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (I Coríntios 13: 4,7)

            Após o nosso “encontro pessoal com Deus” começamos a buscar meios de nos mantermos próximos Àquele que mudou as nossas vidas. Além dos compromissos nos grupos de jovens, missões, retiros e tantas outras atividades que fazemos com muito empenho, com o avançar da caminhada, percebemos que, para nos mantermos constantemente próximos de Nosso Senhor, é necessário uma vida virtuosa. Após percebermos isso, é comum que nos perguntemos: Mas por qual virtude devo começar? O que devo fazer para ser melhor?

            Se prestarmos atenção, a vida dos Santos é permeada de alegrias e, ao mesmo tempo, constante sofrimento! A arte de sofrer com alegria foi, e é, uma via certa de encontro diário com Deus, pois assim nos aproximamos, pouco a pouco, do sacrifício que Jesus viveu por nós. Porém, em um mundo onde ouvimos que “o importante é ser feliz” pouco se fala dos frutos da entrega, do serviço, do amor paciente.

A virtude da paciência é responsável por nos fazer aceitar os sofrimentos com mansidão e amor.  Sobre essa virtude, Jesus nos explicou quando se dirigiu à Marta dizendo: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, porém uma só coisa é necessária” (Luc 10, 41-42).

Atualmente, vivemos agitados como Marta, entendemos que nosso fim último é Deus, mas existem outras coisas que nos confundem no caminho até o Pai, e fazem com que percamos o impulso até Nosso Senhor. Essas coisas, que ficam nos confundindo no caminho, são as paixões desordenadas. Não estamos falando aqui somente dos pecados mortais, pois consideramos que já nos convertemos e lutamos para alcançar a santidade. O que acontece é que lutamos, lutamos, e não alcançamos a santidade, ficamos estagnados no mesmo lugar, nas mesmas paixões(1).

Segundo os ensinamentos de Santa Teresa D’ávila, no nosso caminho rumo à santidade adentramos às moradas do nosso castelo interior e, na maioria das vezes, ficamos paralisados na terceira morada. Ou seja, nos convertemos, tomamos a decisão de abandonar os pecados mortais e nos manter em estado de graça (primeira morada); a partir disso, decidimos levar uma vida de oração séria (segunda morada) e ainda começamos a direcionar corretamente as paixões que nos confundiam no caminho para Deus, através de penitência, disciplina e purificação (terceira morada). No entanto, nesse estágio ficamos paralisados, por não aceitar as contrariedades e provações cotidianas e, dessa forma, interrompemos nosso caminho até a santidade(1).

É certo que as três primeiras moradas nos dão acesso a salvação, mas devemos nos lembrar que, se nos mantivermos nelas, teremos que passar pela purificação do purgatório. Para entrar na morada da santidade (quarta morada), devemos aprender com Jesus a sermos “mansos e humildes de coração”. Para isso, devemos buscar a paciência divina, devemos aprender a sermos pacíficos interiormente, enquanto o mundo estiver desmoronando ao nosso redor; a viver não somente as penitências que nós mesmos nos propusermos e quisermos, mas a aceitar os sofrimentos inesperados do cotidiano, a aceitar com amor a injustiça cometida e as provações que, com o passar de nossas vidas, se colocam diante de nós(1).

            As dificuldade de “engolir”, aturar e aceitar as situações estão sempre associadas à nossa dificuldade de sofrer. As contrariedades podem ser divididas em três tipos: as provocadas pelos outros (um modo desagradável de falar, de esquecer, de se atrasar…), as que decorrem das circunstâncias (uma doença, o desemprego, a mudança do clima…) e as procedentes de nós mesmos (descontentamento com aparência, personalidade, manias…). Costumeiramente reagimos a essas contrariedades com impaciência (lembre-se: sua essência mais íntima consiste em não saber sofrer) ou com sua “irmã mais velha”: a ira (2)

            Cada um de nós recebe determinadas contrariedades de uma forma diferente. Já parou para pensar naquela pergunta boba que todos já ouvimos: “você prefere frio ou calor?”, pois bem, o que trás alegria para uns, irrita (e muito) outros. Concretamente, a paciência cristã é a virtude que nos dá, com a graça divina, a capacidade de suportar, como dizia Santa Terezinha, as “pequenas alfinetadas” do martírio diário. Para continuarmos a caminhar – alegremente – com Jesus, devemos fazer o que Ele nos ensinou: servir! Sim, pessoas pacientes são pessoas que estão dispostas ao serviço, à uma vida de entrega.

            É comum que os pais e familiares questionem as crianças, “o que você quer ser quando crescer?”, e esperem respostas como “engenheiro”, “bombeiro”, “bailarina” e “professora”. Menos comum é  perguntar o que elas querem fazer e/ou oferecer para as outras pessoas do mundo. Esta deveria ser a pergunta mais importante. Temos educado nossas crianças para que pensem que “o mundo é para mim” ou para que considerem suas vidas como uma tarefa de doação? Nós devemos coisas ao mundo e não o mundo a nós(2).

Enquanto vivia em um campo de concentração, o psiquiatra Victor Frankl, inspirou muitos prisioneiros à refletirem sobre o sentido da vida. Ele transmitia a ideia de que o ser humano foi feito para algo muito maior do que comer, beber, gozar, rir na fortuna e chorar na adversidade. Deus e as pessoas, segundo Frankl,  esperam algo que só cada um de nós pode dar(2).

“Do que realmente precisamos é de uma mudança radical da nossa atitude perante a vida. Temos que aprender nós mesmos, e depois ensinar aos desesperados, que na verdade não é importante o que nós esperamos da vida; importante é o que a vida espera de nós” (Victor Frankl)(2).

Bom, saber o que devemos fazer é o primeiro passo: buscar a virtude da paciência em nossa caminhada. Mas como faremos isso?

Iniciemos pensando no que nos aborrece, o que nos leva a momentos de impaciência. A seguir, devemos nos questionar: como Deus me pediu para amar neste momento? Quando colocamos uma dose generosa de amor, nos sobra paciência. A impaciência não encontra espaço em um coração que luta para amar. Mas aí poderíamos pensar que amar é ainda mais difícil! Com certeza o seria se o amor dependesse unicamente das forças humanas. Graças a Deus não lutamos sozinhos, a graça nos sustenta! Nós amamos para corresponder o Amor – a Deus.

O amor cristão é movido por duas asas: a da oração e a da mortificação! “Todo o exercício da virtude cristã da paciência comportará necessariamente o movimento de uma dessas asas ou, o que será mais freqüente, de ambas ao mesmo tempo”(2). Portanto, uma vida de paciência não nasce de constantes repetições mentais “preciso ser paciente, preciso ser paciente, preciso ser paciente…”. Trata-se de ação! Precisamos pedir a graça pela oração e nos colocarmos a serviço de nossos irmãos. Todo sacrifício vivido por amor a Deus gera frutos: escutar pacientemente a todos, sem deixar que se apague o sorriso dos lábios; não andar comentando a todo tempo sobre suas dores de cabeça ou falta de horas de sono; não reclamar sobre “o calor do Saara” ou sobre a demora em uma fila…

Roguemos a Deus, que nosso sofrimento cotidiano se una ao de Cristo para que aprendamos a amar de verdade, sem reservas, amar no que julgamos ser impossível amar. Peçamos a nosso Senhor que aquiete a Marta agitada que habta em nosso coração, para dar lugar ao Cristo que quer viver em nós, o Cristo que todos os dias de nossa existência é um poço de paciência conosco e que jamais desiste de nos amar, de nos salvar.

Referências Bibliográficas: